Hercule Florence: o inventor da fotografia que viveu em Campinas
Em 1833, na Vila de São Carlos, atual Campinas, o francês Hercule Florence fixou imagens com a luz e criou a palavra photographie. Conheça a história.
Por Redação Campinas SP · revisado por Thomas SoaresPublicado em · 5 min de leitura

Toda foto tirada com o celular tem um pouco de história campineira. Em 1833, quando Campinas ainda era a pequena Vila de São Carlos, um francês que morava no Centro conseguiu fixar imagens usando a luz do sol e, pouco depois, deu a esse processo o nome de photographie. Ele se chamava Hercule Florence, e por mais de um século quase ninguém soube disso.
De Nice ao Brasil
Antoine Hercule Romuald Florence nasceu em Nice, em 29 de fevereiro de 1804, e cresceu em Mônaco. Desde pequeno desenhava muito bem e sonhava com o mar. Aos 16 anos, virou grumete. Em 1824, desembarcou no Rio de Janeiro e nunca mais deixou o Brasil.
No Rio, trabalhou numa loja e depois na livraria e tipografia do francês Pierre Plancher. Foi lá que viu um anúncio que mudaria a vida dele: um naturalista estrangeiro precisava de um desenhista para uma viagem pelo interior do país.
A Expedição Langsdorff
O anúncio era do barão Georg Heinrich von Langsdorff, cônsul da Rússia no Brasil, que organizava uma grande expedição científica. Florence foi contratado como desenhista, ao lado de Aimé-Adrien Taunay. A expedição saiu do Rio em 3 de setembro de 1825 e passou por Campinas antes de seguir pelos rios a partir de Porto Feliz.
Foram cerca de 13 mil quilômetros, entre 1825 e 1829, até Belém do Pará. Florence registrou plantas, bichos, paisagens e povos indígenas com rigor científico, como no desenho da cachoeira do Salto Augusto que ilustra esta página. Ele também escreveu o relato completo da viagem, publicado depois como Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas. O historiador Afonso Taunay o chamou de “patriarca da iconografia paulista”.
Por que ele foi parar em Campinas
Foi durante a expedição, em Porto Feliz, que Florence conheceu Maria Angélica, filha do cirurgião Francisco Álvares Machado e Vasconcelos. Depois da viagem, os dois se casaram e foram morar na Vila de São Carlos, onde o sogro tinha uma farmácia.
Em Campinas, Florence foi professor de desenho, comerciante, inventor e, no fim da vida, fazendeiro. Viveu na cidade por cerca de 50 anos.
As experiências com a luz
Florence queria publicar estudos que fizera na selva, como as observações sobre os sons dos animais, que chamou de zoophonie. Só que não havia oficinas de impressão na província. Então ele inventou o próprio método de impressão, a poligrafia.
Daí veio a ideia maior. Num manuscrito, ele conta que em 15 de agosto de 1832, passeando na varanda, pensou em fixar as imagens da câmara escura usando uma substância que mudasse de cor com a luz. Procurou Joaquim Correia de Melo, boticário da farmácia do sogro, que lhe falou do nitrato de prata.
Segundo a revista Pesquisa Fapesp, em 15 de janeiro de 1833 Florence anotou no diário a possibilidade de “imprimir pela ação da luz”. Com uma câmara escura, fixou em negativo a vista da cadeia da vila e um busto de La Fayette. Depois resolveu o problema do negativo: copiou a imagem por contato num papel também sensibilizado e obteve o positivo.
A palavra photographie
| Data | O que aconteceu |
|---|---|
| 15 de agosto de 1832 | Florence tem a ideia de fixar imagens com a luz |
| 15 de janeiro de 1833 | Anota no diário a ideia de imprimir pela ação da luz |
| 21 de janeiro de 1834 | Escreve que seria possível “photographier” |
| 19 de fevereiro de 1834 | Usa a palavra photographie |
| 1839 | Desiste das experiências |
Quando a invenção de Daguerre foi anunciada na França, em 1839, Florence soube da notícia em Itu e ficou frustrado. Morando longe dos grandes centros, ele se via como um “inventor no exílio”. Tentou divulgar suas descobertas em jornais de São Paulo e do Rio, sem sucesso.
Segundo um suplemento do Correio Popular de 1978, guardado no Centro de Memória da Unicamp, Florence morava na antiga Rua Direita, hoje Barão de Jaguara, número 20. A casa ficava na área da atual Praça Bento Quirino, em frente ao lugar onde depois foi erguido o Monumento-Túmulo de Carlos Gomes. Foi ali que ele fez as experiências.
A redescoberta, 140 anos depois
A história só ganhou o mundo graças ao pesquisador Boris Kossoy, que começou a investigar os cadernos de Florence em 1972. Em 1976, com apoio do Instituto de Tecnologia de Rochester, nos Estados Unidos, as experiências de Campinas foram reproduzidas em laboratório, com resultados positivos. Kossoy contou essa história no livro “Hercules Florence, 1833: a descoberta isolada da fotografia no Brasil”.
Hoje Florence é lembrado como um dos inventores da fotografia, que chegou ao processo sozinho, sem saber das pesquisas de Niépce, Daguerre e Fox Talbot na Europa.
Outros inventos e o primeiro jornal do interior
Florence não parou na fotografia. Em 1836, ajudou a fundar O Paulista, primeiro jornal do interior da Província de São Paulo. Preocupado com as notas de banco falsas que circulavam em Campinas, criou o chamado papel inimitável, um método de impressão contra falsificações. Em 1877, foi eleito membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Morreu em Campinas em 27 de março de 1879.
O legado em Campinas
Em 28 de março de 1963, Campinas inaugurou uma herma (busto sobre pedestal) em homenagem a Florence, feita pelo escultor Vicente Laroca. O nome dele também está em eventos de fotografia da cidade:
- O Festival Hercule Florence, de fotografia, teve a 16ª edição de 5 a 23 de agosto de 2026 e abriu um ciclo de ações rumo ao Bicentenário da Fotografia no Brasil, em 2033.
- A Caminhada Fotográfica Hércules Florence, criada em 2000 pelo fotógrafo Carlos Rincon, percorre prédios históricos do Centro, com saída na Estação Cultura.
Para ver a memória da fotografia e do cinema da cidade, o lugar é o Museu da Imagem e do Som, no Centro (horários no roteiro de museus de Campinas). A Campinas em que Florence viveu, a vila do café, aparece em por que Campinas é chamada de Princesa d’Oeste.
As datas das próximas edições do festival e da caminhada são divulgadas pela Secretaria de Cultura e Turismo, no site da Prefeitura de Campinas, e pelos organizadores.
Perguntas frequentes
Quem foi Hercule Florence?
Antoine Hercule Romuald Florence foi um desenhista e inventor nascido em Nice em 1804, que viveu em Campinas por cerca de 50 anos. Ele é considerado um dos inventores da fotografia, com experiências feitas na cidade a partir de 1833.
Hercule Florence inventou a fotografia?
Ele é reconhecido como um dos inventores da fotografia, porque chegou a resultados próprios em Campinas, sem saber das pesquisas que eram feitas na Europa ao mesmo tempo. Por isso, o pesquisador Boris Kossoy chamou o trabalho de descoberta isolada da fotografia no Brasil.
Onde Hercule Florence fez suas experiências em Campinas?
Segundo suplemento do Correio Popular de 1978 guardado no Centro de Memória da Unicamp, ele morava na antiga Rua Direita, hoje Barão de Jaguara, número 20. A casa ficava na área da atual Praça Bento Quirino, em frente ao lugar onde depois foi erguido o Monumento-Túmulo de Carlos Gomes.
Quando Hercule Florence usou a palavra photographie?
Segundo a revista Pesquisa Fapesp, em 21 de janeiro de 1834 ele escreveu no diário que seria possível fotografar, e em 19 de fevereiro do mesmo ano usou a palavra photographie. Foi bem antes de o termo ser usado na Europa.
O que foi a Expedição Langsdorff?
Foi uma expedição científica comandada pelo naturalista Georg Heinrich von Langsdorff, que percorreu o interior do Brasil entre 1825 e 1829, cerca de 13 mil quilômetros. Florence foi um dos desenhistas e deixou o relato completo da viagem.
Quem ajudou Hercule Florence nas experiências?
O boticário Joaquim Correia de Melo, que trabalhava na farmácia do sogro de Florence. Foi ele quem indicou o nitrato de prata, que escurece com a luz, para as experiências.
O que é o Festival Hercule Florence?
É um festival de fotografia realizado em Campinas, inspirado no legado do inventor. A 16ª edição foi de 5 a 23 de agosto de 2026 e abriu um ciclo de ações rumo ao Bicentenário da Fotografia no Brasil, em 2033.
Fontes
- Wikipédia: Hércules Florence
- Revista Pesquisa Fapesp: Caminhos paralelos
- Centro de Memória Unicamp: Correio Popular, suplemento Hércules Florence (29 de novembro de 1978)
- Prefeitura de Campinas: Festival Hercule Florence transforma a cidade em palco de reflexões sobre memória e crise climática
- Prefeitura de Campinas: Caminhada Fotográfica Hércules Florence faz 25 anos
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