Catedral Metropolitana de Campinas: a história da igreja feita de taipa
A Catedral de Campinas levou de 1807 a 1883 para ficar pronta e é tida como o maior prédio de taipa de pilão do mundo. Conheça a obra e os entalhes de cedro.
Por Redação Campinas SP · revisado por Thomas SoaresPublicado em · 5 min de leitura

No meio do Centro de Campinas, de frente para o Largo da Catedral, fica um prédio que demorou mais de sete décadas para ficar pronto. A Catedral Metropolitana, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, foi erguida com uma técnica que hoje parece improvável para uma igreja desse tamanho: paredes de terra socada. E é justamente isso que faz dela um caso raro no mundo.
Uma paróquia que nasceu em 1774
A vida religiosa de Campinas começou oficialmente em 14 de julho de 1774, data da fundação da cidade. Naquele dia foi inaugurada a paróquia de Nossa Senhora da Conceição, numa capela provisória de taipa coberta de sapé. Ela ficava onde hoje está o Monumento-Túmulo de Carlos Gomes, no Centro.
O povoado cresceu, virou a Vila de São Carlos em 1797, e a igreja velha ficou pequena. Em 1807, a câmara da vila decidiu construir uma matriz nova. Os enormes alicerces, típicos da taipa de pilão, foram feitos com mão de obra escravizada.
O que é taipa de pilão
Na taipa de pilão, a parede nasce de terra, cascalho e saibro socados com pilões dentro de grandes formas de madeira. Camada por camada, o material vai sendo comprimido até formar paredes grossas e muito resistentes. Era a técnica mais comum nas construções paulistas do período colonial.
Na Catedral, o trabalho foi lento. As taipas foram sendo piladas por quase quatro décadas, pagas com contribuições, loterias e até um imposto provincial criado em 1854. Só em 1845 as paredes ficaram prontas e foi possível cobrir a capela-mor, a sacristia e a nave central.
O resultado é um prédio de cerca de 4 mil metros quadrados, considerado o maior edifício do mundo construído em taipa de pilão e também um dos mais altos.
A visita do imperador e a matriz emprestada
Quando as taipas ficaram prontas, Campinas recebeu o aviso de que Dom Pedro II passaria pela cidade, que ele mesmo tinha elevado à categoria de cidade em 1842. O protocolo pedia uma visita à matriz, mas a nova ainda não tinha condições de uso. A solução, em 1847, foi transformar às pressas a Igreja do Rosário em matriz provisória.
Os entalhadores que vieram da Bahia
O interior da Catedral é o que mais impressiona quem entra. Em 1853, o português Antônio Francisco Guimarães, o “Baía”, morador de Campinas desde 1819, pagou a vinda de um grupo de entalhadores da Bahia. O mestre era Vitoriano dos Anjos Figueiroa, que na cidade passou a ser chamado de “professor de entalhe” e formou um grupo de aprendizes.
Vitoriano esculpiu em madeira de lei o altar-mor, os púlpitos, as varandas do coro e as colunas da Capela do Santíssimo. O escritor Emílio Zaluar, que visitou Campinas em 1862, ficou encantado: “Tenho visto poucos trabalhos tão peregrinos executados em madeira. É um poema de flores”, escreveu, num trecho reproduzido por jornal guardado no Centro de Memória da Unicamp.
Em 1862, Vitoriano deixou a obra. O novo administrador, Antônio Carlos de Sampaio Peixoto, o “Sampainho”, montou outro grupo, chefiado pelo fluminense Bernardino de Sena Reis e Almeida. Eles terminaram a ornamentação da nave e, em 1865, os altares laterais e as capelas, tudo em cedro, madeira que era abundante nas matas em volta da cidade. O estilo é o barroco baiano sem douração.
Sinos, fachada e a festa de 1883
Os sinos começaram a ser instalados em 1870. O mais antigo tem o apelido do doador, Baía, e pesa três toneladas. Doado em 1847, ele só podia tocar em ocasiões especiais e ficou em silêncio por 13 anos, até a inauguração.
A fachada teve cinco projetos diferentes ao longo das décadas. O último, em estilo neoclássico, ficou com o campineiro Francisco de Paula Ramos de Azevedo, que assumiu a obra em 1880 e a concluiu, com direito a canos embutidos para a iluminação a gás, novidade na época.
A inauguração foi em 8 de dezembro de 1883, dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Campinas. Segundo o recorte de jornal do Centro de Memória da Unicamp, a festa teve coros, solos de Sant’Anna Gomes, irmão de Carlos Gomes, a presença da cantora Maria Monteiro e 16 arcos de iluminação. Os fogos ficaram de fora por causa do mau tempo.
Reformas, órgão e o amarelo de volta
Na grande reforma de 1923, a fachada ganhou os medalhões com datas importantes, guirlandas e estátuas dos quatro evangelistas e de quatro anjos. O telhado colonial foi trocado por telhas francesas, e uma cúpula em gomos passou a ter no alto a imagem de Nossa Senhora.
Dentro da igreja há um órgão Cavaillé-Coll de 1883, feito pelo organeiro francês Aristide Cavaillé-Coll, com 16 registros e dois teclados. É o segundo maior órgão dessa marca no Brasil.
Em 2015, depois de 92 anos pintada de branco, a fachada principal voltou à cor original, o amarelo ocre. O prédio é tombado pelo Condephaat, do Estado, e pelo Condepacc, de Campinas. A história de como o café transformou a cidade nesse período está em por que Campinas é chamada de Princesa d’Oeste.
A Catedral hoje
A Catedral continua sendo a sede da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, a organização religiosa mais antiga de Campinas, e da Arquidiocese. Além das missas, recebe concertos: em 3 de julho de 2026, a Capela Musical Pontifícia Sistina, o coro oficial do Papa, se apresentou ali na primeira turnê da história do grupo pela América Latina.
Fica na Praça José Bonifácio, no Centro, a poucos passos de outros prédios históricos. Dá para incluir a visita num passeio a pé pelo Centro de Campinas, junto com os museus da região central.
Como a Catedral é uma igreja em funcionamento, os horários de abertura e de missas podem mudar. Antes de ir, confirme com a Paróquia Nossa Senhora da Conceição ou nos canais oficiais da Arquidiocese de Campinas.
Veja também o roteiro a pé pelo Centro.
Perguntas frequentes
Quanto tempo levou a construção da Catedral de Campinas?
A obra começou em 1807 e a igreja foi inaugurada em 8 de dezembro de 1883, mais de 70 anos depois. A demora teve a ver com a falta de dinheiro, as mudanças de projeto da fachada e os acontecimentos políticos da época.
O que é taipa de pilão?
É uma técnica antiga em que terra, cascalho e saibro são socados com pilões dentro de formas de madeira até virarem paredes grossas e resistentes. As taipas da Catedral foram sendo piladas por décadas e só ficaram prontas em 1845.
A Catedral de Campinas é a maior construção de taipa do mundo?
Sim, ela é tida como o maior edifício do mundo construído em taipa de pilão, com cerca de 4 mil metros quadrados. É também uma das mais altas obras feitas com essa técnica.
Quem fez os entalhes da Catedral de Campinas?
O baiano Vitoriano dos Anjos Figueiroa chegou em 1853 e entalhou em cedro o altar-mor, os púlpitos, as varandas do coro e as colunas da Capela do Santíssimo. A partir de 1862, o trabalho foi continuado por um grupo liderado pelo fluminense Bernardino de Sena Reis e Almeida.
Onde fica a Catedral Metropolitana de Campinas?
Fica na Praça José Bonifácio, conhecida como Largo da Catedral, no Centro de Campinas. É a sede da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, a organização religiosa mais antiga da cidade.
Por que a fachada da Catedral é amarela?
O amarelo ocre é a cor original. A fachada passou 92 anos pintada de branco e, em 2015, depois de um restauro, voltou ao tom amarelo.
A Catedral de Campinas é tombada?
Sim. O prédio é tombado pelo Condephaat, órgão de patrimônio do Estado de São Paulo, e pelo Condepacc, conselho de patrimônio de Campinas.
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