Por que Campinas é chamada de Princesa d'Oeste, e a história da Cidade das Andorinhas
O apelido Princesa d'Oeste nasceu no tempo do café, quando Campinas era a porta do sertão paulista. Veja a origem e a história da Cidade das Andorinhas.
Por Redação Campinas SP · revisado por Thomas SoaresPublicado em · 5 min de leitura

Quem cresceu em Campinas já ouviu a cidade ser chamada de Princesa d’Oeste. Pouca gente, porém, sabe de onde ele veio. A resposta está no café, nas ferrovias e num tempo em que o oeste paulista era sertão. E tem um segundo apelido, quase esquecido, que envolve milhares de passarinhos no Centro.
Uma vila que o café transformou
Campinas nasceu como pouso de tropeiros no Caminho dos Goiases e virou freguesia em 14 de julho de 1774. Depois foi Vila de São Carlos e só em 5 de fevereiro de 1842 foi elevada a cidade, retomando o nome de Campinas.
Na fase inicial, o povoado tinha pouca expressão. Isso mudou com o café. A cana-de-açúcar atingiu o auge na região em 1836 e começou a perder espaço. Em 1852 já eram 82 fazendas de café, com produção de 200 mil arrobas; dois anos depois, eram 177 fazendas e 330 mil arrobas.
O dinheiro do café mudou a cidade. Viajantes da época ficaram impressionados: em 1860, o viajante Tschudi descreveu Campinas como “uma das maiores povoações da província”, e em 1865 o Visconde de Taunay a chamou de “cidade próspera e rica, muito animada e progressista”.
A origem do apelido
Um texto publicado em O Estado de S. Paulo em 16 de julho de 1961, guardado hoje no Centro de Memória da Unicamp, explica a origem assim: com o café, a cidade “cresce subitamente” e se torna “boca de sertão”. “Data daí o seu romântico apelido, Princesa do Oeste”, diz o texto, “quando a civilização parava nas margens do Atibaia e Campinas capitaneava toda uma região sertaneja na qual os cafezais começavam a amanhecer”.
Ou seja: o oeste do apelido não é um ponto do mapa, mas a fronteira do café, o interior ainda pouco ocupado da província de São Paulo. Campinas era a cidade que liderava essa região inteira, e a imagem de princesa vem daí: a mais importante de todo aquele interior em formação.
As fontes consultadas não apontam quem usou a expressão pela primeira vez. Mas ela já estava consagrada em meados do século 20: em 1939, o jornal Correio Popular chamou de “certame da Princesa d’Oeste” a Exposição Regional de 1885, e em 1961 a Folha de S.Paulo também se referia à cidade com o apelido.
Ferrovia, fábricas e palacetes
O mesmo texto de 1961 lembra que a estrada de ferro que vinha de Santos tinha em Campinas a sua ponta de trilhos. A primeira estação ferroviária da cidade foi inaugurada em 1872, e dali os trilhos seguiram sertão adentro, pela Paulista e pela Mogiana. A história do prédio está na nossa matéria sobre a Estação Cultura.
Com o café vieram as primeiras fábricas, como a de chapéus dos Bierrenbach (1857) e a Lidgerwood (1864), e palacetes como o Palácio dos Azulejos, construído nos anos 1870 para o comendador Joaquim Ferreira Penteado. Em 1887, Dom Pedro II inaugurou o Instituto Agronômico de Campinas, o IAC.
A Catedral Metropolitana, da foto acima, é testemunha desse período. A obra começou em 1807 e só terminou em 8 de dezembro de 1883. Feita em taipa de pilão, é considerada o maior edifício do mundo construído com essa técnica.
Com o tempo, o oeste “recuou”, como escreveu o jornal em 1961, e a fronteira do café foi parar longe. O apelido, porém, ficou.
A Cidade das Andorinhas
O outro apelido é mais poético. Segundo reportagem do Diário do Povo de 8 de novembro de 1985, Campinas foi conhecida por mais de meio século como a Cidade das Andorinhas. Desde os primeiros anos de 1900, milhares delas viviam no Centro.
Tudo começou com uma mudança de endereço. Em 1908, a cidade inaugurou o Mercado Municipal (conheça o prédio no nosso guia do Mercadão), e o antigo Mercado das Hortaliças, o Mercadinho, construído em 1886 em frente à Escola Normal, ficou vazio. As andorinhas o adotaram como dormitório.
Todo verão, no fim da tarde, elas formavam uma nuvem no céu e desciam de uma vez em direção ao Mercadinho. O espetáculo virou cartão de visita da cidade, e até Rui Barbosa deixou um registro poético sobre as andorinhas campineiras. As alunas da Escola Normal, vizinhas do prédio, passaram a ser chamadas de “andorinhas”.
Por que elas foram embora
Há várias versões. A mais repetida diz que, em 1948, o velho prédio foi desinfetado e pintado, e as aves, que estavam fora na época do frio, estranharam o cheiro e não voltaram. Outras versões falam da redução de alimento com o crescimento da cidade e da reclamação de comerciantes vizinhos.
A demolição da chamada Casa das Andorinhas começou em 18 de abril de 1956. No lugar surgiu a Praça Heitor Penteado, que o povo passou a chamar de Praça das Andorinhas. As normalistas fizeram campanha, vendendo selos, para erguer um monumento às aves. Ele chegou em 1961, obra do escultor campineiro Lélio Coluccini. Em 1974, no bicentenário da cidade, o mesmo artista fez um novo monumento para a praça, e o antigo foi levado para a frente do Museu de Arte Contemporânea.
Outros apelidos
Além de Princesa d’Oeste e Cidade das Andorinhas, Campinas ganhou um apelido moderno: Vale do Silício brasileiro, por causa das indústrias de alta tecnologia e dos centros de pesquisa. Outra curiosidade de nome campineiro está em por que a Ponte Preta se chama Ponte Preta.
Os recortes de jornal citados aqui fazem parte do acervo do Centro de Memória da Unicamp e estão digitalizados no catálogo on-line do centro. Para conhecer a história da cidade de perto, os prédios citados ficam no Centro e podem ser vistos num passeio a pé.
Perguntas frequentes
Por que Campinas é chamada de Princesa d'Oeste?
O apelido vem do século 19, quando o café fez Campinas crescer de repente e virar a principal cidade da fronteira agrícola paulista. Naquela época, a cidade liderava uma grande região do sertão onde os cafezais estavam começando.
O que significa o oeste em Princesa d'Oeste?
O oeste era o interior ainda pouco ocupado da província de São Paulo, o chamado sertão. Com o avanço das ferrovias e do café, esse oeste foi ficando cada vez mais longe, mas o apelido de Campinas permaneceu.
Quais são os apelidos de Campinas?
Os mais conhecidos são Princesa d'Oeste e Cidade das Andorinhas. Pelo polo de empresas de tecnologia, a cidade também é chamada de Vale do Silício brasileiro.
Por que Campinas é a Cidade das Andorinhas?
Desde o começo do século 20, milhares de andorinhas dormiam no prédio do antigo Mercado das Hortaliças, no Centro, e faziam revoadas no fim da tarde de verão. O espetáculo virou cartão de visita da cidade por mais de meio século.
Por que as andorinhas foram embora de Campinas?
Há várias versões. A mais repetida diz que, em 1948, o velho prédio onde elas dormiam foi desinfetado e pintado, e as aves não voltaram mais. Outras versões citam a redução de alimento com o crescimento da cidade.
Onde fica o Monumento às Andorinhas?
O monumento do escultor campineiro Lélio Coluccini foi instalado em 1961 na praça que ficou conhecida como Praça das Andorinhas. Em 1974, no bicentenário da cidade, o mesmo artista fez um segundo monumento para o local, e o primeiro foi transferido para a frente do Museu de Arte Contemporânea.
Quando Campinas virou cidade?
Campinas foi fundada como freguesia em 14 de julho de 1774 e elevada à categoria de cidade em 5 de fevereiro de 1842. Antes disso, foi a Vila de São Carlos.
Fontes
- Centro de Memória Unicamp: recorte de O Estado de S. Paulo, A princesa (16 jul. 1961)
- Centro de Memória Unicamp: recorte da Folha de S.Paulo, Há 187 anos celebrava-se a 1a missa em Campinas (14 jul. 1961)
- Centro de Memória Unicamp: recorte do Diário do Povo, Campinas, Cidade das Andorinhas... Que andorinhas? (8 nov. 1985)
- Centro de Memória Unicamp: recorte do Correio Popular, Rememorando o extraordinário certame da Princesa d'Oeste de 1885 (17 dez. 1939)
- Wikipédia: Campinas
- Wikipédia: História de Campinas
- Wikipédia: Catedral Metropolitana de Campinas
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